Por mais que eu tentasse resistir, não tinha jeito, a semana tava começando e eu precisava ir pra faculdade. Essa era a minha única obrigação (mesmo eu não sendo obrigado a cumprir). Troquei de roupa e quando já tava quase saindo olhei pra aquela camiseta branca e pensei: não, melhor trocar, vestido de branco assim os outros vão pensar que eu sou louco. Voltei, coloquei uma camiseta preta e fui em direção ao ponto de ônibus. Eles apontavam no fim da rua enquanto eu tentava ver ansiosamente se era o que eu pegava e depois que eles chegavam me sentia impaciente e frustrado por não ser o meu. Isso se repetiu umas 50 vezes até que finalmente ele apareceu. Minha cabeça doía e meus olhos começavam a pesar um pouco. Sentei na janela, no segundo banco da direita. Olhava as pessoas que entravam no ônibus passarem e quando alguma delas olhava para o banco vazio ao meu lado eu pensava: não, não, é proibido sentar aqui, proibido, proibido. Algum tempo se passou e o inevitável estava pra acontecer. Alguém ia ocupar aquele lugar, era uma menina, aparentava ter uns 22 anos, loira, muito bonita e talvez por muitas pessoas dizerem isso pra ela, tinha uma cara de cú impressionante. Parecia se sentir a rainha do ônibus. Enfim, a miss da linha se sentou ao meu lado e a viagem seguiu. Quando faltava uns 10 minutos pra eu descer tudo estava parado; alguns funcionários de alguma construtora reivindicavam alguma coisa. Sinceramente eu não tava nem aí pra aquilo, mas como de costume aquilo me atingia diretamente. Enquanto o marasmo se seguia pensei em puxar um papo com a miss da linha. Primeiro imaginei como seria a conversa pra ter certeza se valeria a pena.

-- Olá. Tudo bem?

(cara de cú, seguida de um meio tudo)

-- Tá afim de conversar ou tá sem saco?

-- Ahh, to com sono.

-- Então tá, foi um prazer não te conhecer!

Comecei a rir incontrolavelmente e aquilo chamou a atenção de todos (principalmente da miss da linha). Ela me olhou com cara de estranheza e percebendo que havia um banco vazio do outro lado se levantou. Naquele momento eu olhei pra ela e disse bem alto: foi um prazer não te conhecer! Desta vez seu olhar foi de medo e ela desceu no ponto seguinte. Coitada, deve ter tido que andar quase 1 km e nesse trajeto todo deve ter me xingado de todas as formas. Me arrependi um pouco mas pelo menos consegui esquecer daquela dor de cabeça que voltava subitamente. Saltei do ônibus e segui em direção a faculdade. A primeira aula já tinha começado. Entrei e me senti fuzilado com todos me olhando. Depois de cumprimentar alguns amigos percebi que não conseguia me concentrar em nada que o professor dizia. Só conseguia prestar atenção nas pequenas conversas paralelas e tentava decifrar o que falavam para saber se não era nada relacionado a mim. Aquilo foi aumentando e eu não consegui mais me segurar. Juntei as minhas coisas e sai da sala completamente atordoado. Dessa vez dei sorte e meu ônibus foi o primeiro a passar. Enquanto há meia hora atrás dava gargalhadas, agora estava aos prantos me sentindo totalmente dominado por tudo aquilo. Eu não aceitava aquela situação e quanto mais tentava assumir o controle de tudo menos controle tinha sobre o que estava acontencendo. Cheguei no apartamento ainda antes do almoço e resolvi tomar um banho pra tentar relaxar. Me lembro da minha vista escurecer e de não conseguir entender muito bem porque a torneira continuava girando sem parar (na verdade ela tava espanada, mas pra mim aquilo era alguma coisa da minha cabeça). Não sabia mais o que fazer. Morava sozinho e não queria deixar minha mãe preocupada com aquilo, até porque ela levaria mais de 6 horas pra chegar em São Paulo e sinceramente eu não me considerava ter sido um bom filho até aquele momento pra merecer tanta atenção.

Resolvi continuar a estória que começara no dia anterior mas desta vez sob um prisma mais positivo. Tinha que de alguma forma reconciliar os personagens pra que o livro começasse de vez.

-- Alô, Ca? Sou eu.

-- Pode falar..

-- Realmente tudo o que a gente tá passando tem me feito muito mal e eu não posso mais continuar assim. Preciso muito de você nesse momento e você nem imagina o quanto. É uma coisa que vai muito além de gostar ou querer ter pra si.

-- Tá acontecendo alguma coisa? Tô ficando preocupada. Pra mim a gente nunca esteve prestes a terminar, só tava numa fase um pouco mais nebulosa e nada mais.

-- Nossa Ca, você não imagina como é bom ouvir isso. Parece que tirei um caminhão das minhas costas.

-- O senhor exagerado! Amanhã a gente se vê! Beijo!

-- Beijo.

Um pouco simplista demais talvez, mas foi o máximo que consegui produzir. A minha ansiedade pra resolver tudo contribuiu e contagiado pela atmosfera do texto resolvi ligar pra Flá.

-- Alô, Flá? Sou eu .

-- Pode falar..

-- Realmente tudo o que a gente tá passando tem me feito muito mal e eu não posso mais continuar assim. Preciso muito de você nesse momento e você nem imagina o quanto. É uma coisa que vai muito além de gostar ou querer ter pra si.

-- Sinceramente acho que não tem mais clima pra gente ficar junto. Queria ter dito isso a você quando fui aí, mas não consegui. A gente vive momentos muito diferentes e eu acabei conhecendo uma pessoa muito especial. Enfim, não quero falar muito disso pra não te magoar mais.

-- Nossa Flá, você não imagina como é ruim ouvir isso. Parece que o mundo tá caindo nas minhas costas e eu esperava que você me ajudasse a tirar tudo de cima, mas pelo contrário, você acaba de jogar mais coisas em cima de mim..

-- Me desculpa! Por favor!

Desliguei o telefone e tive todas as sensações de perda ao mesmo tempo: dor, inconformismo, raiva, angústia. Tinha feito o máximo pra conseguir manter tudo como estava. Me concentrei e lutei contra meu estado psíquico pra ter aquela conversa mas de nada adiantou. Desconsolado, andando de um lado para o outro conclui que a estória da minha vida não seria escrita só por mim, mas sim, no mínimo a quatro mãos.

Sempre achei São Paulo uma cidade muito fria, cinza, um lugar onde as pessoas olham as outras só pra confirmar se estas estão olhando pra elas. Um lugar onde a desconfiança e o medo sufocam qualquer tipo de hospitalidade que alguém possa ter. Voltava da faculdade, onde cursava o terceiro ano de publicidade, na mesma hora de sempre. As pessoas também eram quase sempre as mesmas e algumas vezes eu pensava viver algo parecido com o que acontece no filme “Truman: show da vida”. Devaneios a parte, naquele dia alguma coisa parecia diferente. Aquele primeiro banco do ônibus já não estava tão confortável assim; as conversas das outras pessoas atrás de mim me incomodavam e eu não me sentia avontade com aquilo. Imaginava que todos falavam de mim, de algum detalhe ou alguma coisa em mim que eu não percebia. Aquela sensação de estranhar a si próprio não parecia ser tão estranha. Desci no segundo ponto depois do cemitério (era assim que eu tinha aprendido em que ponto descer e continuava sendo assim que eu fazia há 3 anos). Cheguei no prédio ansioso e um pouco ofegante e me perguntava porque o porteiro não destravava logo o portão. Será que ele tinha alguma coisa contra mim? pensei. Entrei e percebi algo estranho em seu olhar. Logo depois que as portas do elevador se fecharam ouví algumas risadas que confirmaram o que eu pressentia: ele só podia estar rindo de mim. Entrei sem saber se eram todos que estavam diferentes ou eu que não conseguia mais me reconhecer. Aquilo tudo era muito estranho, parecia que o mundo conspirava contra, que tudo girava ao meu redor no sentido contrário. Liguei a tv e subitamente vi o relógio do jogo de futebol  voltar 1 segundo e deixar claro meu estado de paranóia. Deitei na cama e comecei a transpirar e sentir uma impotência muito grande diante de tudo que se passava. Estava acontecendo de novo, era síndrome do pânico. Dentre todas as minhas paranóias essa era a única que agia sobre mim sem que eu conseguisse esboçar nenhuma reação. Liguei para a minha analista e ela me indicou o mesmo calmante que eu tomei da última vez que tinha acontecido. Por sorte eu ainda tinha alguns comprimidos em cima da geladeira e não precisei juntar forças e criar coragem pra descer até a farmácia. Aquela tarja preta agiu como uma venda em meus olhos e depois de engolir o comprimido não me lembro de mais nada.

No dia seguinte estava deitado no chão da sala com a tv ligada e uma dor de cabeça incontrolável. Já passava das duas da tarde e eu precisava comer alguma coisa. Poderia ter feito o pedido por telefone, mas meu espírito de superação falou mais alto e eu decidí ir até um fast food próximo pra encarar o problema de frente. Depois de sentar para esperar meu pedido ficar pronto percebi que duas meninas conversavam e me olhavam de vez em quando e eu também as olhava, mas apenas pra saber se elas estavam me olhando. Uma mesa vazia a minha esquerda determinava o espaço que nos separavam que não passava de um metro. A proximidade era muito grande e diretamente proporcional ao pânico que eu comecei a sentir. Tentei disfarçar procurar algo no celular, mas quanto mais eu tentava parecer normal mais estranho eu ficava. Minhas mãos começaram a tremer e as meninas perceberam o que estava acontecendo. Prontamente as duas se levantaram e enquanto a primeira me olhava com cara de assustada, a segunda tentava convence-la de que não havia problema algum e que ela já tinha conhecido pessoas com casos parecidos. Elas foram embora e aquele fato me abalou profundamente. Comecei a chorar e entre uma lágrima e outra peguei o almoço e resolvi comer em casa. Passei pela recepção do prédio olhando para o chão e desta vez não dei nenhuma chance para que o porteiro me atingisse com algum olhar estranho. Depois de comer, liguei novamente pra minha analista e descrevi toda a situação. Ela me explicou que isso acontecia porque havia algum gatilho que disparava a minha sensibilidade elevando-a a níveis extremos e que eu precisava identificar a causa e resolver a situação. Realmente era isso, da primeira vez o fato estava ligado a morte de meu pai e desta ao possível término do meu namoro de quase 3 anos. Era insuportável imaginar que a mulher da minha vida estivesse prestes a deixar a minha vida. Para que isso não acontecesse eu estava disposto a aceitar o fato dela ter ficado com outra pessoa e já atribuía ao que aconteceu a idéia dela ter acabado de entrar na faculdade e estar contagiada por todo o clima de mudança proporcionado por isso. Liguei para a Flá e pedi pra ela passar as 18 no meu ap pra gente conversar.

Definitivamente o tempo não estava a meu favor. Depois de vê-lo voltar no dia anterior o que eu mais queria era que ele passasse o mais rápido possível naquela tarde. Aproveitei pra colocar em prática um desejo antigo: começar a escrever um livro. De acordo com a minha analista aquilo me ajudaria a exteriorizar todos os meus medos e angústias e a medida que eu fosse escrevendo iria me sentir cada vez mais relaxado. Era inegável que a minha situação naquele momento iria influenciar diretamente na estória. Sem nenhuma inspiração, as coisas não caminhavam muito bem e eu tinha produzido muito pouco até que a campainha tocou. Só podia ser a Flá e a tão esperada conversa estava pra começar.

-- Tudo o que aconteceu não foi de propósito, ou pelo menos com o propósito de te magoar.

-- Como?

-- Isso mesmo! Não tive intenção de te machucar.

-- Mas as suas intenções com aquela pessoa me machucaram. Portanto, mesmo indiretamente você teve intenção sim.

-- Você nunca vai entender Gabriel! Você não consegue separar as coisas. Se primeiro tentasse me entender, talvez agora conseguisse perceber que não havia má intenção.

-- Talvez você tenha razão. Mal intencionado sou eu por querer manter uma relação com você.

Pronto, o primeiro diálogo da estória tinha terminado. Ainda refletindo se Gabriel seria um bom nome pro protagonista abrí a porta e a Flá entrou. Depois de um beijo rápido, apenas pra cumprir o protocolo, comecei a conversa enquanto ainda trancava a porta.

-- Flá. A gente tá passando por momentos diferentes, mas eu acho que tudo pode dar certo, a gente pode ficar bem e superar tudo isso.

Diferentemente da estória, comecei logo fazendo o papel que eu esperava que a Flá fizesse. Não queria continuar brigado e nem discutir muito sobre o assunto; precisava resolver aquilo o quanto antes. Porém, parece que o desejo não era recíproco. Um silêncio enorme se seguiu depois de eu ter dito aquilo. Ela estava com uma cara que negava cada palavra e ao mesmo tempo com um olhar de estranheza muito grande, talvez em retribuição aos meus que deixavam visíveis minha situação. Minha cabeça tremeu levemente como uma espécie de tique nervoso e depois de alguns segundos ela resolveu me dizer que ainda estava muito confusa e que não decidiria nada naquela hora. Que merda! Eu poetizei tanto aquele momento, criei um diálogo pra estória tentando prever como seria (tudo bem que no diálogo eu não dava o braço a torcer mas no fundo queria que tudo terminasse bem) e só recebí em troca uma resposta da boca pra fora. Ela pareceu ter passado só pra dar um “oi” e dizer que tudo continuava igual. O vazio que se instaurou entre a gente foi tão grande que pela primeira vez achei que aquela kit net  possuia espaço suficiente pra alguém sobreviver. Tinha quase certeza de que ela percebeu que eu não estava mentalmente bem e por isso deu um jeito de ir embora o quanto antes. O impasse estava formado. Eu precisava dela pra superar tudo aquilo e ao mesmo tempo parecia precisar estar bem para continuar com ela.

Layout simples né? Pois é.. Pretendo começar a colocar em prática meu primeiro plano de 2009 ainda em 2008. Vou começar a escrever outra estória e para isso precisava de bastante espaço livre para os textos. Pretendo postar um capítulo por semana ou a cada 15 dias (dependendo do andamento da estória). Espero que gostem!


Um abraço,

Leo

Acabo de entrar no hospício (eufemicamente chamado de clínica de reabilitação). Minha cabeça treme, meus cílios palpitam, meu corpo se enrigece. Talvez seja medo do que está por vir, talvez seja uma forma de me adequar mais rapidamente ao ambiente. Sempre tive uma imagem de que aqui encontraria pessoas vestidas de branco, com olheiras enormes, presas em camisas de força. Pois é, foi exatamente isso que encontrei. Não consegui distinguir se o primeiro olhar que recebi foi ameaçador ou piedoso. Ninguém aqui dentro parece sentir compaixão, nem de si mesmo. Por isso assumirei uma postura fria mas não calculista. Não há muito o que análisar ou entender por aqui. Aqui dentro são todos loucos julgando-se lúcidos. E aí fora? Não acontece o mesmo? Começo a estabelecer um paralelo entre essas duas realidades. Na verdade um paralelo entre a realidade vivida aí fora e a ilusão vivida aqui dentro. Ouço gritos. Os gritos parecem comuns e tem uma conotação diferente aqui dentro; eles não representam o desespero e sim a esperança. Esperança de ter o mínimo de atenção. Tudo parece muito disperso, muito superficial. Uma reação não dura mais do que o tempo em que é transmitida. Depois disso, tudo volta ao normal. Usar a palavra "normal" passa a exigir uma adequação ao contexto aqui dentro. Vejo alguns internos pulando uma corda invisível (mesmo com camisa de força) e outros olhando para o céu com a boca aberta (a princípio acredito que esperam por alguma gota de chuva). E por incrível que pareça ela começa a cair, e todos que estão no pátio começam a ser retirados. Uma voz ao fundo grita: "quem fica na chuva faz xixi na cama". Meu Deus! Preciso rever todos os meus conceitos pra não enlouquecer aqui dentro. O autor da frase acaba de passar por mim dizendo: "prazer, vô Moacir". Vô?? Ele aparenta ter 30 anos e se julga avô!! Agora todos estão no quarto e teoricamente este é o lugar que eu devo dormir. Confesso ser um pouco difícil pegar no sono quando você olha pro lado e vê uma pessoa que parece tentar encaixar sua cabeça no estrado da cama. Do outro lado um senhor de uns 60 anos me chama.

- Quem é você?
- Leonardo, prazer.
- Eu tenho um plano de fuga. Você consegue levantar só uma sombrancelha?
- Ham?
E o velho prosseguiu.
- Sempre que eu digo que tenho um plano de fuga imagino o outro levantando só uma sombrancelha.
- Eu não consigo, mas tenho vontade.
- Seu desejo é uma ordem majestade!
Percebendo que o velho já tinha se esquecido do plano de fuga resolvi retomar.
- Mas e o plano, como você pretende fugir?
- De barco, depois que as águas invadirem.

Sim, ele me mostrou um barquinho de papel e eu me arrependi de ter retomado a conversa. Virei para o lado e comecei a ouvir uma voz que dizia baixinho. "Seu desejo é uma ordem majestade". Do outro lado do quarto um grito: "Silêncio! Quem fala a noite faz xixi na cama!". Parece que o lugar é pior do que eu imaginava. Minha cabeça começa a doer e emitir um certo zunido. Preciso encontrar um pouco de sanidade aqui dentro antes que essa "clínica de reabilitação" habilite 100% da minha loucura.

Estou viciado, dependente da nossa química, buscando constantemente nossos momentos inigualáveis que as vezes terminam em overdose. Tudo isso porque um dia resolvi experimentar e depois daquela experiência não consegui mais me livrar. Sim, eu achei que tivesse tudo nas mãos, que tivesse você em minhas mãos, sob controle. Mas o fato é que acontece o oposto, você me tem nas mãos e eu estou descontrolado. Mesmo assim não consigo admitir. Nego a todos que isso tem me dominado; mantenho o discurso de que posso sair quando quiser e que se ainda não estou limpo é porque não quero. Mentira. Perdi as contas das vezes que pensei ter me livrado de você, mas tive recaídas e depois delas parecia que o mundo caía sobre mim. Todos os meus amigos e parentes dizendo as mesmas coisas, dando os mesmos conselhos. É obvio que eu tenho que colocar um fim nisso tudo. O que não parece óbvio é a forma como devo fazer. Já tentei me distanciar totalmente, te ter em doses homeopáticas, deixa-la aos poucos. Mas como posso deixar alguém que me faz tão bem ainda que ao mesmo tempo me cause tantos danos?

Acabamos de nos encontrar e sinceramente não sei se estou lúcido o suficiente pra refletir sobre a situação. Parece fato que com você eu tenho uma baixa expectativa e um alto grau de prazer, e sem você, tenho uma alta expectativa e um baixo grau de prazer. O que é melhor? Queimar tudo de uma vez em um fogo bem forte ou manter a chama deixando-a se apagar aos poucos? Nesse instante o melhor a fazer é te escutar, mesmo sabendo que em outros momentos todos os seus conselhos giravam em torno de vivermos inconsequentemente. Porém, agora as coisas mudaram e eu estou certo de que você vai tentar me convencer que isso tem tratamento. Que eu posso me reabilitar e voltar a ter uma vida normal. Que o que eu preciso é ficar longe de você em abstinência. Que todo esse prazer e adrenalina estão só na minha cabeça e que eu estou doente. Doente emocionalmente.

Se a pressa é realmente inimiga da perfeição, porque os baianos não são em sua maioria perfeccionistas?

Por que o preço do combustível não diminui se o número de carros cresce absurdamente a cada dia? Esta é a excessão para a lei/regra da oferta e da procura?

Por que no começo dos shows do chiclete com banana todos correm sem sair do lugar? Foi daí que nasceu a expressão "correr pra não chegar"?

Se uma imagem vale mais do que mil palavras, porque nos comunicamos através da escrita e não dos desenhos?

Por que ao invés de proibir o uso de celulares na cadeia não são feitos grampos para chegar mais fácil aos criminosos das ruas?

Prêmios entitulados "pelo conjunto da obra" são dados por pessoas que só leram o resumo da obra?

Se para descer todo santo ajuda então cada santo tem no mínimo duas funções?

Diferentemente de outros estímulos gerados pelo cérebro, o bocejo é o único que não conseguimos evitar. Quando o impulso é gerado não é possível termos qualquer outro tipo de reação a não ser bocejarmos. Analogamente a paixão possui exatamente a mesma definição.

Um dos melhores textos que já li.

Acabei de dar um tiro em minha cabeça
Na ilusão de que a culpada fosse a razão.
Que tola atitude minha!
Em pensar que este pesar acabaria
Em dois segundos de explosão...
Agora soube eu que é tarde,
Pois perdi completamente a racionalidade,
E fadada a sentir-me metade,
Comprovo meu simples erro vão:
A direção do tiro, inocente, eu errei;
Tinha de ser no coração.

Autora: Patrícia Lage
Blog: Exercício Lírico

Download do conto: "Sobre Viver"

CENA 1:

Espero um dia te ver jogar fora as flores mortas que guardei pra ti. Construo cenas de vida ou morte pra não manter viva as lembranças que tenho de nós dois.

CONTEXTO: Introdutório

----------------------------------------------------------------------------------

CENA 2:

O lado mais sombrio do que sinto por você, é agora o que mais se aproxima de uma luz no fim do túnel. Já quase não me lembro da sua luz que antes não tinha fim.

CONTEXTO: Dramático

----------------------------------------------------------------------------------

CENA 3:

Ainda me lembro da época em que você se propôs a pagar o meu preço, talvez por
isso, prostituo-me tentando te ter de volta a qualquer custo.

CONTEXTO: Irônico

----------------------------------------------------------------------------------

CENA 4:

Talvez esse texto não esteja a sua altura, mas jogando-o a seus pés certamente conseguirei eleva-lo ao seu nível.

CONTEXTO: Metalinguístico

----------------------------------------------------------------------------------

CENA 5:

Se a esperança é mesmo a última que morre, quero te encontrar linda, vestida de preto, pra que juntos a enterremos junto com tudo o que existiu entre nós.

CONTEXTO: Conclusório

----------------------------------------------------------------------------------

Estréia prevista ainda para este ano.

Download do conto: "Sobre Viver"

Para a surpresa de todos, foi revelado em alto e bom ultra-som: será uma menina. Que sorte! Fará parte do universo feminino e não do planeta masculino. Nascerá mais humana e sem ter de se preocupar com os números terá inúmeras possibilidades de ter uma vida mais saudável (valorizando as coisas mais simples e simplificando as de maior valor). Não tentará esconder o que sente para de alguma forma se sentir superior. Encontrará na palavra detalhe uma conotação totalmente oposta. Irá procurar não por um homem que lhe entenda, mas que apenas esteja disposto a compreender suas instabilidades. Repudiará aqueles que invadirem o seu espaço sem que antes ela o tenha criado para isso. Ainda viverá em um mundo machista e mesmo aparentando fragilidade, carregará um peso muito mais significativo do que qualquer alter levantado pelos homens. Buscará constantemente a essência das coisas até que estas se tornem essenciais. Vislumbrará todos os seus sonhos acordada e realizará a maioria deles apenas quando estiver dormindo. Seguirá sempre deixando subentendido que a melhor resposta para alguns de seus problemas inventados é apenas entender que não há solução. Não abrirá mão da força acompanhada da sensibilidade, da maturidade com a inocência, da responsabilidade com a inconsequência, da chuva com o sol e se tudo não for completo, que simplesmente a envolva por completo.

obs: ser pai ainda é parte de um futuro que não me pertence.

Download do conto: "Sobre Viver"

Estou tão perdido quanto você
perdido com você, perdido em você...
Sinceramente eu faria qualquer coisa
pra saber o que fazer.

Me deixei levar não por aquilo que sentia ser certo, mas por aquilo que de certa forma me despertou algum sentimento. Descobri que um sentimento só é verdadeiro quando é constante, quando permanece estático observando os prazeres carnais que costumam ir e vir. Um sentimento de verdade é incondicional. Ele não está ligado a nada e costuma transformar tudo a nossa volta. Paradoxalmente tudo em minha volta tem se transformado pelo mais estranho dos sentimentos: a indiferença, que define-se exatamente pela ausência de se sentir.

- Mas quem disse que eu sou tão boazinha assim?
- O seu rosto.
- Rostos não falam.

E foi assim que tudo começou.

obs: escrito da boca pra fora baseado em sensações de fora pra dentro.

Download do conto: "Sobre Viver"

Preserve sua vida sem se privar de parte dela. Não ultrapasse o máximo permitido mas permita-se a chegar bem perto. Sonhe. Não tolere mentiras ou meias verdades. Uma das formas de mentir pra si mesmo é justamente aceitando as meias verdades. Vislumbre o que está por vir, se deslumbre com o que passou e não vá passar sem perceber que hoje pode ser um dos dias que você vislumbrou e amanhã deslumbrante será lembrar o que ficou. Não viva esperando por alguém mas também não deixe morrer as esperanças de que esse alguém possa voltar. Volte-se pra si mesmo enquanto isso. Supere o que passou aceitando o que aconteceu. Dedique-se sempre por completo quando estiver à procura de alguém que te complete. Preencha seu tempo livre com coisas que te deixem ainda mais livre. Faça a sua liberdade. Arrisque. A vida costuma premiar os que tentam. Tente ser mais tolerante com os outros, mais compreensivo consigo mesmo e mesmo que você não consiga colocar isso em prática hoje, coloque-se a disposição para praticar daqui pra frente. Sinta orgulho do que já fez mas não o considere quando tiver algo a fazer. Sinta compaixão apenas pelos outros e nunca de si mesmo. Repare que o futuro não é linear, há diferentes caminhos e riscos (e caminhos compostos de riscos) e eles certamente estão todos na palma da sua mão. Olhe para ela.

Inspirado no texto "Wear Sunscreen" de Baz Luhrmann.

Download do conto: "Sobre Viver"

Havia dois caminhos a seguir. O primeiro, a princípio, não levava a lugar nenhum e o segundo, e principal, levava ao primeiro. Em uma decisão sensata, ela escolheu o segundo. Ele era sim um caminho mais longo, ele era sim um caminho sem volta, ele era assim como qualquer outro, com apenas uma ressalva: o fato de levar ao primeiro, e este, a princípio, não levar a lugar nenhum. E assim ela viveu situações inigualáveis. Tomou chuva sábado a tarde, mas não esqueceu de segunda-feira. Tomou sorvete no inverno mas não esqueceu do último verão. Viveu fantasiando fatos mas não viveu todas as suas fantasias quando elas aconteceram de fato. Tudo por saber que aquele caminho a levaria ao primeiro e o primeiro, a princípio, não a levaria a lugar nenhum. Sua vida passou, suas idéias tornaram-se ultrapassadas e finalmente os dois caminhos se uniram. Mais alguns anos de caminhada e para a sua surpresa, aquele primeiro que, a princípio, não levava a lugar nenhum a levou ao segundo caminho. Ela se viu novamente frente a frente com o começo de tudo; pensou em tudo o que passou e na forma como se passou e concluiu: realmente este primeiro caminho não me leva a lugar nenhum.

Download do conto: "Sobre Viver"

Não preciso te escrever sobre uma vida
que já está toda resumida
naquela página que você virou.
[É como se a minha rima fosse de encontro a sua espontaneidade. Por isso agora prefiro as rimas casuais que não causam um efeito mecânico e nem se casam com a fluidez de um parágrafo. É um formato que está entre mim e você, e que traduz um pouco do que existiu entre nós]

Sentir excessivamente a sua falta
é agora o pouco que me resta.
[Enquanto ontem não me restava dúvidas de que isso me definia, hoje acabou juntando-se aos restos do que foi definido por você]

Sempre esperarei por você, até que nesse meio tempo
encontre alguém que sempre esperou por mim.
[Reservado para a sua legenda reflexiva]

Download da estória "Sobre Viver"

Em uma noite de quarta comum, alguns amigos conversavam animadamente sentados ao redor de uma mesa de bar.
...
-- Lu: Vc me fez pensar no quanto nós seres humanos somos bobos, ao ponto de pequenas bobagens estragarem tudo de melhor que construímos numa relação, seja ela qual for. E agora? Como vai se dar esse "passar a limpo"?
-- Rapha: Inícios ou fins causam sempre expectativa e preocupação. Quero saber o que vai sair dessa conversa.
-- Batom Cor de Rosa: humm, romances no ar!
O clima estava esquentando e parecia que Lu finalmente iria revelar que estava vivendo um novo romance depois de um término conturbado de namoro. A questão era saber se ela havia ou não conseguido conquistar seu novo pretendente.
-- Rapha: Depois nós falamos que mulher é um caso sério, elas não acreditam!..
-- Si: Pensando bem, o Rapha tem razão. A mulher consegue convencer muito bem os que estão na corda bamba.
Depois de alguns segundos de silêncio e mais alguns copos de cerveja, Rapha resolveu lançar uma indireta para que Lu tomasse coragem e contasse logo as novidades.
-- Rapha: Segredos podem ser revelados... Qualquer coisa pode haver uma explosão.
-- Robertinho: O queeeeeee... colocando lenha na fogueiraaaa!! Queremos mesmo é ver o circo pegar fogo!”
-- Patrícia: Pronto, tô roendo as unhas!!!
-- Lu: Tchan tchan tchan tchan!!!
-- Ricardo: Já to sentindo o cheiro de confusão nessa historia..
Percebendo que a conversa chegava num ponto decisivo e por conhecer a timidez de Lu, Rapha foi direto ao ponto.
-- Rapha: Todo mundo é hipócrita em dizer que já não passou por coisas parecidas assim! Se já trocou, já trocou!
-- Lu: Mas é que tudo acontece de forma tão intensa aqui dentro. A minha vida é muito complicada!
-- Ricardo: AHAAAAAAAAA!!! eu sabiiiiiiiiiiaa!!
-- Robertinho: É, mulher é tudo igual mesmo...
No último lugar da mesa, Léo continuava em silêncio anotando algumas falas de seus amigos para depois transformá-las em comentários sobre os posts de seu blog.


Download da estória "Sobre Viver"

No meio de uma larga rua vazia e em meio a um largo vazio dentro de si, ele caminhava sob olhares cruzados enquanto seus olhos apenas correspondiam minuciosamente a dor de um amor não correspondido. Suas juras de amor eterno, agora eram quem juravam a sua morte. Seu comportamento e atitudes inigualáveis enquanto juntos, agora se igualava a de qualquer outro depois de separados. E aquilo não fazia mais diferença; ele não a fazia sentir-se mais diferente. O concreto dos prédios, o dia nublado e a poluição que compunham o cinza da cidade tiravam as cores da sua esperança. Mais dois passos e ele estaria a um passo de se jogar. A paz daquela leve brisa das tardes de sexta havia chegado tarde demais. Seus pulsos acelerados o impulsionavam a saltar. Naquele instante e apenas por um instante sua consciência falou mais alto do que qualquer sentimento dentro de si.
-- Príncipe encantado, almas gêmeas, amores eternos, nascidos um para o outro... Ah, mas que bobagem. Não existe só uma pessoa certa pra cada um de nós. Existem várias pessoas certas pra cada um de nós. Ela era apenas mais uma das pessoas certas pra você que não deu certo com você. Seus exageros e fantasias ainda potencializarão muitas de suas desilusões amorosas.
Consolado por sua própria consciência o mendigo deu alguns passos para trás, sentou-se na calçada e preparou-se para se apaixonar perdidamente pela próxima moça que passasse.

Download da estória "Sobre Viver"

As duas deram o sinal para o ônibus. A primeira subiu os dois degraus e dirigiu-se ao cobrador. A segunda veio atras e depois de saltar os dois “degrais” já foi mais pra perto da roleta. Enquanto uma propunha-se a procurar algumas moedas a fim de facilitar o pagamento, a outra só queria saber de sentar em um dos dois bancos que ainda tinham sobrando. Sentaram-se lado a lado. Da janela, a primeira via e se sensibilizava com a miséria e alguns olhares desesperançosos. Do corredor a coisa mais fácil que tinha pra acontecer era alguém chegar e pedir dinheiro pra segunda; era só nisso mesmo que ela pensava. A primeira continuava transformando o longo percurso em um momento reflexivo e vislumbrava o sol que refletia em si seu último lema: sempre manter a esperança, mas nunca esperar por nada. Do lado dela só dava pra ver era a vontade de sair do busão. O sol já tava batendo no rosto da segunda moça, que começou a bufar por causa daquele calor de rachar.
Os degraus eram os mesmos e serviram tanto para subir quanto para saltar. Do lado de fora ou de dentro a miséria era a mesma. O sol que incomodava era o mesmo que recomfortava. Maneiras e formas distintas de ver a mesma coisa aliada a maneiras e formas iguais de ver coisas diferentes enriqueciam aquela viagem e enriqueceria cada uma delas se tivesse havido um diálogo. A medida que o ônibus chegava perto do destino media-se entre as duas uma distância cada vez maior. Esta que foi contida quando após a parada uma delas se levantou e disse:
-- Tchau mãe.
-- Vai com Deus minha filha.

Download da estória "Sobre Viver"