Filha. Hoje você completaria 6 anos. Isso quer dizer que já faz quase 1 ano que você partiu. Não consigo esquecer que sempre quando lhe perguntavam sua idade você levantava a mão espalmada. Você mal sabia contar, muitas vezes sequer sabia o que estavam te falando, mas a resposta era a mesma: cinco anos. Desde que você nasceu, esse gesto já significou muitas coisas pra mim. Nos primeiros dias entendia como um chamado e logo estava ao seu lado tentando decifrar o que seu olhar queria me dizer. No seu aniversário de 1 ano, quando te vi levantar a mão e olhar pra frente, deduzi ser um aceno à todas aquelas pessoas presentes. A partir daí veio o tchau, o para, o oi e finalmente a resposta para a pergunta quantos anos você tem. Estava tudo sempre ali, na minha cara, e eu não imaginei que cinco anos seria o tempo que passaríamos juntos. E cinco anos passam tão rápido, e a vida passa tão rápido, e a sua vida passou tão rápido minha filha, tão rápido que eu não tive tempo de assimilar tudo o que você quis me dizer. E agora que eu tenho todo o tempo do mundo pra isso, agora que o tempo tem passado cada vez mais devagar, que o mundo tem girado no seu ritmo, no ritmo de uma criança que parecia só saber contar até cinco, agora é tarde. Tarde demais pra chegar mais tarde no trabalho e te ver acordar, tarde demais pra chegar mais cedo em casa e te colocar pra dormir, tarde demais pra deixar você molhar o meu terno enquanto toma banho, tarde demais pra perceber que você só viveria até os cinco e que de muitas formas tentou me mostrar isso. Enfim, tarde demais pra te ensinar a contar até cem.