Quero encontrar alguém. Me apaixonar perdidamente. Me encontrar nesse alguém. Perder o juízo no início. Viver como se nada tivesse fim. Esquecer os meus defeitos. Eternizar suas qualidades. Elogiar o seu nariz. Te deixar tomar conta do meu. Dar presentes criativos. Receber respostas criativas. Inventar um mundo só pra nós dois. Colocar ele na palma da sua mão. Te dar um algodão doce e um balão de gás. Subir com você até as nuvens. Pintar nosso futuro lá de cima. Usar as cores que você escolher. Preferir menino ou menina. Ter um casal de gêmeos. Casar de dez em dez anos e viver ao seu lado até os cem.

Finalmente tinha conseguido! Em uma galeria antiga, num prédio antigo do antiquado bairro da República lá estava ela: a Moranguinho. Como sensação da década de 80 ela não poderia estar em um lugar mais apropriado. Não sei porque a Mari gostava tanto dessa boneca se o seu único atrativo era o cheiro da fruta que levava em seu nome. Questionamentos a parte fiz a compra pagando um valor digno de umas cinco feiras com todas as frutas no carrinho. Apesar do preço, confesso ter sentido um certo orgulho, pois encontrar uma moranguinho atualmente é como achar uma agulha no meio de ipods, pen-drives e celulares de última geração. Estava ansioso para revelar a surpresa. Cheguei na casa da Mari e quando ela abriu a porta foi como se a boneca tivesse ido lhe visitar e não eu. Ela pouco se importou com a minha presença e seus olhos de jaboticaba brilharam ao ver aquele pequeno pedaço de morango. Logo que a teve em suas mãos, eu esperava vê-la acariciar seus cabelos crespos ou apertar sua barriguinha na esperança de ouvir um "quack" ou algo do genêro como resposta. Mas não, a Mari é expert em moraguinhos, uvinhas e afins, e sua primeira atitude foi cheirar a boneca. Nesse momento, meu mérito por ter encontrado a relíquia foi subitamente inalado pelos seus pequenos canais nasais. Sua reação foi contundente:

- Mas não tem cheiro de morango!!!

- É Mari, ela é uma boneca da década de 80, alguns anos se passaram.. mas a gente pode chamar ela de mofinho, o que você acha?

Primeiro você me fez gostar de você. Naquela época eu pensava em todas as coisas do mundo menos em me apaixonar por alguém. Depois você me fez mulher. Aliás depois de muito tempo você me fez mulher. Não imaginava que alguém iria respeitar tanto o meu tempo quanto você respeitou. Mais alguns anos e você me fez acreditar que ainda valia a pena se casar. Me fez ver que eu poderia me sentir linda mesmo acordando com a cara amassada domingo de manhã. A partir dali resolvi começar a colocar em uma pequena caixa todas as coisas que você fazia por mim para algum dia de alguma forma tentar retribuir tudo isso. A vida foi seguindo e você me fez parar de fumar e começar a correr 2 km por semana, me fez sempre tirar uma hora pra almoçar, me fez sorrir nas horas mais difíceis, chorar de alegria, me fez continuar até conseguir, parar quando não valia mais a pena insistir, me fez dormir melhor, acordar melhor, comer melhor. Você me fez aprender com os seus erros, me arrepender dos meus, me fez acertar. E foram incontáveis as vezes que você me fez acertar! Ah, você sempre me fez muito feliz!

Hoje, depois de todos esses anos guardando nesta pequena caixa cada pedacinho de tudo o que você fez por mim, chegou a hora de retribuir. E foi juntando tudo o que você me fez que eu fiz esse bilhete pra te dizer:

-- Parabéns, você vai ser papai!