Mal eles se conheceram e ela já começou a tentar desvendar tudo o que havia em comum entre os dois, em quais pontos eles pensavam da mesma forma e quantas vezes por dia ela se identificava com algo que ele dizia. Seu desejo de se enxergar nele e fazer único o que na verdade era um par continuou, e após uma semana de namoro lá estava ela parada em frente ao espelho tentando encaixá-lo em sua imagem refletida. Algumas diferenças podiam facilmente ser notadas no cotidiano, como o fato dele enxergar em uma mulher grávida apenas uma barriga e não uma criança. Ou, não passar pela sua cabeça que mesmo depois de ter perdido a corrida seu piloto favorito poderia ter feito as melhores voltas. Sua insensibilidade era gritante e mesmo assim ela fingia não ouvir. Estava claro que a imagem que ela desejava refletir estava perdendo o foco, mudando de posição, mas mesmo assim sua opção era sempre trocar as lentes ou se inclinar um pouco mais para um dos lados. Depois de algum tempo juntos o desgaste do espelho foi inevitável. Ela também estava desgastada e em um descuido ele veio ao chão. Foi o fim do namoro. Enquanto ele lhe desejava sorte, ela recolhia os últimos fragmentos do vidro estilhaçado. Após dois meses colando os cacos, lá estava ela parada novamente em frente ao espelho, que agora mais parecia um mosaico, tentando disfarçar sua realidade refletida: via-se ali uma mulher em pedaços, exausta por querer tanto se encaixar naquilo que foi feito para existir lado a lado.