Acabo de entrar no hospício (eufemicamente chamado de clínica de reabilitação). Minha cabeça treme, meus cílios palpitam, meu corpo se enrigece. Talvez seja medo do que está por vir, talvez seja uma forma de me adequar mais rapidamente ao ambiente. Sempre tive uma imagem de que aqui encontraria pessoas vestidas de branco, com olheiras enormes, presas em camisas de força. Pois é, foi exatamente isso que encontrei. Não consegui distinguir se o primeiro olhar que recebi foi ameaçador ou piedoso. Ninguém aqui dentro parece sentir compaixão, nem de si mesmo. Por isso assumirei uma postura fria mas não calculista. Não há muito o que análisar ou entender por aqui. Aqui dentro são todos loucos julgando-se lúcidos. E aí fora? Não acontece o mesmo? Começo a estabelecer um paralelo entre essas duas realidades. Na verdade um paralelo entre a realidade vivida aí fora e a ilusão vivida aqui dentro. Ouço gritos. Os gritos parecem comuns e tem uma conotação diferente aqui dentro; eles não representam o desespero e sim a esperança. Esperança de ter o mínimo de atenção. Tudo parece muito disperso, muito superficial. Uma reação não dura mais do que o tempo em que é transmitida. Depois disso, tudo volta ao normal. Usar a palavra "normal" passa a exigir uma adequação ao contexto aqui dentro. Vejo alguns internos pulando uma corda invisível (mesmo com camisa de força) e outros olhando para o céu com a boca aberta (a princípio acredito que esperam por alguma gota de chuva). E por incrível que pareça ela começa a cair, e todos que estão no pátio começam a ser retirados. Uma voz ao fundo grita: "quem fica na chuva faz xixi na cama". Meu Deus! Preciso rever todos os meus conceitos pra não enlouquecer aqui dentro. O autor da frase acaba de passar por mim dizendo: "prazer, vô Moacir". Vô?? Ele aparenta ter 30 anos e se julga avô!! Agora todos estão no quarto e teoricamente este é o lugar que eu devo dormir. Confesso ser um pouco difícil pegar no sono quando você olha pro lado e vê uma pessoa que parece tentar encaixar sua cabeça no estrado da cama. Do outro lado um senhor de uns 60 anos me chama.

- Quem é você?
- Leonardo, prazer.
- Eu tenho um plano de fuga. Você consegue levantar só uma sombrancelha?
- Ham?
E o velho prosseguiu.
- Sempre que eu digo que tenho um plano de fuga imagino o outro levantando só uma sombrancelha.
- Eu não consigo, mas tenho vontade.
- Seu desejo é uma ordem majestade!
Percebendo que o velho já tinha se esquecido do plano de fuga resolvi retomar.
- Mas e o plano, como você pretende fugir?
- De barco, depois que as águas invadirem.

Sim, ele me mostrou um barquinho de papel e eu me arrependi de ter retomado a conversa. Virei para o lado e comecei a ouvir uma voz que dizia baixinho. "Seu desejo é uma ordem majestade". Do outro lado do quarto um grito: "Silêncio! Quem fala a noite faz xixi na cama!". Parece que o lugar é pior do que eu imaginava. Minha cabeça começa a doer e emitir um certo zunido. Preciso encontrar um pouco de sanidade aqui dentro antes que essa "clínica de reabilitação" habilite 100% da minha loucura.

3 comentários:

Lu disse...

Muito interessante teu texto, moço! Lembrou-me o velho Dr. Simão Bacamarte de Machado de Assis. Gostei, deveras! Talvez, principalmente, porque ñ tem duas semanas tive um sonho muito semelhante. A diferença é que, no sonho, eu pedia pra ficar nesse lugar...rs
Bjks!

Thay disse...

Interessantissimo

Robertinho disse...

Caraca Leo, curti mutio esse texto! Esse é daqueles com gostinho de quero mais! Vai rolar um outro conto? Aposto que vai fazer muito sucesso!

Grande abraço e sucesso sempre!