... Pelo fato de ter se casado há mais de trinta anos e o seu amor pelo marido ser inversamente proporcional a todo esse tempo, Joana via aquela situação como uma grande oportunidade de sua filha garantir o seu futuro.

Dentre todas as suas angustias, a maior delas para Ana era estar entre Luís e Joana para ter a tão aguardada conversa. Todas as desculpas que Ana encontrou para ocupar o tempo de sua mãe se esgotaram. O mês de dezembro já estava na metade e faltavam poucos dias para que Joana voltasse ao Brasil. Havia chegado o momento mais aguardado para ela e menos aguardado para sua filha. Luís nem imaginava o que estava pra acontecer. Aproveitando o fato de todos estarem pela primeira vez reunidos no café de domingo, Joana não pensou duas vezes e iniciou a conversa:
-- Pois bem Luís. Ana me disse sobre suas intenções com ela. O que eu quero saber é o que você pretende daqui pra frente. Continuar aqui para o resto da vida, voltar ao Brasil, construir uma família...
-- Nossa Joana! Eu pretendo me casar com ela e manter tudo exatamente como está. Claro que se quero me casar é porque acho que Ana é a mulher da minha vida e eu não me imagino vivendo sem ela.
-- E você Ana?! Diga alguma coisa!
-- Eu não sei mãe. O Luís sabe que eu gosto muito dele, mas ...
-- E quanto a voltar ao Brasil? – Joana indagou
-- Voltar ao Brasil? Você não me disse isso Ana!
-- Pois é. Ia te dizer antes de você me pedir em casamento. Agora parece que a decisão de ir acaba deixando implícito que eu não quero ficar com você. Eu não sei se posso ou quero fazer isso. Esse pedido colocou tudo em uma dimensão muito maior.
-- Olha Ana, se você rejeitar o pedido será...
-- Você não vai fazer isso não é filha?!
-- Só um minuto dona Joana. Então, se você rejeitar, vou entender a sua resposta negativa também como um “não” para a nossa relação. Portanto, pense bem.
Nada aconteceu como Ana planejava. A idéia de “dar as mãos” a sua mãe e se apoiar nela para escolher o melhor caminho havia falhado. Agora estava tudo em suas mãos. Luís esperava uma decisão. Joana se desesperava com a indecisão de Ana. Enquanto ela se via em uma situação completamente diferente e inesperada naquele instante.

... Em contrapartida, se sua resposta fosse “sim” ela poderia compartilhar com Luís uma vida totalmente diferente daquela que viveram até agora.

Os dias passavam rápido demais para quem tinha a intenção de adiar ao máximo uma decisão. Ana vivia o segundo dilema de sua vida. O primeiro foi ter de optar entre continuar a faculdade no Brasil ou abandoná-la na metade para se dedicar por inteiro a um desejo que completaria sua vida. Nesta primeira ocasião Ana escolheu a segunda opção e mudou-se para Paris. Na ocasião atual, uma saída era não sair de Paris e a outra era voltar ao Brasil e sair definitivamente da vida de Luís. A chegada de sua mãe significava para Ana um possível aumento nas possibilidades de resolução do problema. Impaciente por ter guardado um segredo por todo o tempo em que aguardava sua mãe, Ana não conseguiu esperar e ainda entre um abraço e algumas lágrimas desabafou.
-- Não sei mais se quero continuar aqui mãe. Não tenho mais sequer vontade de trabalhar ou fazer qualquer outra coisa.
-- Minha filha! Você sabe que desde que saiu de casa nós sempre esperamos de braços abertos pela sua volta. Está tudo como você deixou. A única coisa que muda e que não nos deixa é a saudade que sentimos de você.
-- Eu também sinto!
-- Mas e o Luís? Ele sabe da sua pretensão?
-- Esse é o problema e ao mesmo tempo uma possível solução. O Luís me pediu em casamento e se eu aceitar vou ter que continuar aqui..
-- Que surpresa boa Ana! Das outras vezes em que estive aqui sempre tive uma ótima impressão dele. Aquela busca incessante em conseguir se estabilizar profissionalmente sempre foi um bom indício de que ele te daria um ótimo futuro. Mas existem outros pontos. Precisamos ter uma conversa a três.
-- Mãe! Queria que você me aconselhasse o que fazer e não que fizesse nada por mim!
-- E eu não vou fazer. Mas antes de conversarmos quero sentir se as intenções dele são as mesmas que seu pai tinha quando me pediu em casamento.
-- Ai meu Deus!
A mãe de Ana parecia se transformar quando o assunto era casamento. Pelo fato de ter se casado há mais de trinta anos e o seu amor pelo marido ser inversamente proporcional a todo esse tempo, Joana via aquela situação como uma grande oportunidade de sua filha garantir o seu futuro.

... Enquanto ele via esta fase como uma exclamação para tudo que passou; para ela, chegar a esse ponto originou um ponto de interrogação no namoro.

Em uma noite comum (como outra qualquer) Luís e Ana jantavam no restaurante La Tour D’Argent e tinham o privilégio de ter ao fundo o rio Senna (como nenhum outro sequer).
-- Tenho muitos planos pra gente Ana! Parece que agora tudo está no caminho certo. Vejo que nesses dois anos que estamos juntos conseguimos juntar todas as peças de nossas vidas que não se encaixavam. Daqui pra frente quero construir uma vida com você. Por isso preciso te pedir. Ana, se casa comigo?
Naquele momento ela ficou chocada. Transpirava na mesma intensidade em que respirava. Desamparado, seu coração disparou. Batia em ritmos desorientados. Para se orientar e seguir em frente a melhor saída foi colocar a razão a frente de qualquer coisa.
-- Preciso pensar! Não esperava por isso agora, mas isso não quer dizer que eu nunca esperei viver esse momento. Minha mãe chega daqui há duas semanas. Conversar com ela com certeza me ajudará a tomar a decisão.
O pedido de casamento deixou claro o quanto os dois atravessavam momentos diferentes. A proposta de Luís ia na “contramão” dos propósitos de Ana. Por outro lado, ela sabia que Luís sempre estivera ao seu lado desde que chegou a Paris. Voltar ao Brasil agora implicava em se voltar apenas para si, perdendo tudo que havia sido construído até agora.
A chegada de sua mãe seria fundamental para Ana. A pretensão em discutir a sua volta virou pretexto para posteriormente contar a ela qual era a intenção de Luís. Uma questão estava ligada a outra. O pedido de casamento não impedia uma possível despedida, mas tornava as coisas um pouco mais difíceis. Em contrapartida, se sua resposta fosse “sim” ela poderia compartilhar com Luís uma vida totalmente diferente daquela que viveram até agora.

... A rotina dos últimos acontecimentos ia de encontro a sua constante idéia de mudanças. Continuar com Luís era como esperar ansiosamente por tudo que ela já havia passado.

Luís atravessava a melhor fase de sua vida. Seu intuito era seguir nesse bom momento e ao mesmo tempo conseguir para e repensar no quanto foi difícil chegar até ali. Ele estava vivendo as consequências de uma sequência de acontecimentos que marcaram seus 5 anos em Paris. O fato de deixar o Brasil não o deixava mais triste naquele momento. Finalmente ele conseguira equilibrar seus lados profissional e pessoal. Sua estabilidade no emprego estava diretamente relacionada a esta habilidade de conciliar esses dois lados. Na fase em que conheceu Ana, sua vida ainda tomava rumos desconhecidos. Curiosamente, todas aquelas incertezas, angustias e mudanças eram justamente o que mantinham a relação para ela. Para ele, era insustentável viver diante de todas aquelas indefinições. Sem que ele soubesse, tudo que ele via como perfeito para si, não tinha nada a ver com o que Ana havia feito até agora. Ela sempre buscou o novo, o desconhecido, o que lhe surpreendesse. Enquanto ele procurava preservar o velho e conhecido costume de se acomodar e não querer se incomodar com as surpresas. Claro que para preservar 2 anos de relacionamento, eles tinham muitas idéias em comum, mas não tinham noção do quanto seus ideais eram diferentes. O fato dele atingir seus objetivos atingia diretamente os objetivos de Ana. De uma forma subjetiva a relação se sustentou para ela até esse momento. Enquanto ele via esta fase como uma exclamação para tudo que passou; para ela, chegar a esse ponto originou um ponto de interrogação no namoro.

... Naquele 23 de dezembro de 2006, vésperas do natal, a cidade luz estaria ainda mais iluminada. Paris era o destino perfeito pra serem feitas mudanças que pudessem preservar o destino da relação.

01 de outubro de 2006. Dois anos se passaram desde que Ana decidiu trocar o Rio por Paris. Pessoalmente, o que ela tentava mudar, era justamente o fato de não ter problemas com as mudanças. Trocar de país, emprego e amigos faziam parte do seu plano que partia do princípio de que as mudanças são importantes pra que sejam mantidos os mesmos objetivos. Ironicamente, o mesmo motivo que a trouxe até Paris há dois anos, parecia ser o mais relevante e que a levava a pensar em voltar ao Rio. Ela precisava buscar novos desafios. O que mais a incomodava não era tudo que havia deixado no Brasil, mas sim em tudo que ela haveria de deixar se não voltasse o quanto antes. A decisão era quase certa. Por outro lado, ela nunca conseguira aplicar toda essa determinação aos seus sentimentos. Isso sempre foi determinante para que suas relações não passassem de um tempo determinado: 2 anos. Este era justamente seu tempo de namoro com Luís. Eles se conheceram logo após sua chegada a Paris. Teria sido seu primeiro “amor à primeira vista” caso ela não tivesse um segundo ponto de vista em relação a isso. Por ter se magoado muito no passado ela enxergava suas paixões sempre nesta sequência: despertada, dispersada e dispensada. Se depois disso ainda restasse alguma coisa, ela não pensava duas vezes e se entregava a relação. Apostar todas as fichas no começo ou entregar todos os pontos antes do fim definitivo do relacionamento não combinavam com ela. Seus amores eram sempre “vividos” e nunca “jogados”. Ultimamente seu envolvimento com Luís não à envolvia por completo. A rotina dos últimos acontecimentos iam de encontro a sua constante idéia de mudanças. Continuar com Luís era como esperar ansiosamente por tudo que ela já havia passado.

... As estrelas projetadas no chão voltaram a girar a medida que eles começaram a rodar. Naquele instante o mundo parou ao redor dos dois. Era como se dalí pra frente tudo e todos estivessem a espera do casal.

O dia da viagem finalmente havia chegado. Com a partida, além do Brasil, Cláudio e Carol esperavam deixar para trás todos os maus momentos que haviam compartilhado nos últimos tempos. Uma vida nova os esperava. Sabendo disso, os dois já não aguentavam mais esperar para mudar de vida. Paris era uma cidade tão bonita quanto desconhecida para eles. O rio senna, o museu do louvre, o arco do triunfo e a torre eiffel representavam uma nova realidade capaz de realizar antigos sonhos de cada um deles. Nada era capaz de desanimá-los. A enorme fila do check-in tornava-se pequena se comparada a ansiedade dos últimos dias por aquele momento. A mudança do portão de embarque não mudava neles a vontade de embarcar. E finalmente o atraso do vôo apenas lhes dava a chance de não precisarem se apressar.
Após a partida do avião uma parte de suas vidas ficava para trás, enquanto outra iria ser construída com o que viria pela frente. Naquele 23 de dezembro de 2006, vésperas do natal, a cidade luz estaria ainda mais iluminada. Paris era o destino perfeito pra serem feitas mudanças que pudessem preservar o destino da relação.

... O baile de formatura estava chegando, e com ele a chance dela dizer a Cláudio sobre sua possível partida.

O baile estava pra começar. Passava das 20:30 e Carol já havia terminado e recomeçado a se arrumar mais de cinco vezes. Ela estava ansiosa e insegura, assim como Cláudio sempre foi. E ele teimava em não aparecer. Tudo dava a entender que ele estivesse muito tranquilo e seguro, assim como ela sempre foi. A cena era trágica e cômica ao mesmo tempo. Como em uma peça de teatro onde os personagens tem seus papéis invertidos. 21:00: finalmente Cláudio chega (de taxi). Meio hora atrasado e muito nervoso, mal conseguia dizer que seu carro havia quebrado. Carol deu um leve sorriso e pensou: “é, nada de papéis invertidos, na nossa estória, Cláudio continua cumprindo o seu papel como sempre”. Mais 20 minutos e os dois já estavam dentro do salão. Depois do “quase” desencontro, Cláudio finalmente pôde parar e reparar no quanto Carol estava linda. Era difícil encontrar palavras que significassem algo além de deslumbrante pra ele. Realmente ficou deslumbrado com o que viu. Após os dois se sentarem, Cláudio viu o momento perfeito para levantar a questão mais importante da noite.
-- Recebí uma proposta no trabalho pra passar 3 meses em Paris fazendo um estágio na CE9, uma das melhores agências da Europa.
-- Nossa Cláudio! Não sei o que dizer! Ao mesmo tempo que será ótimo pra você, também pode ser péssimo pra nós dois.
-- Nisso que eu não paro de pensar. Seria uma espécie de “férias a trabalho” pra mim. Mas só consigo pensar em nós dois e no que aconteceria quando eu voltasse. Talvez seja melhor eu...
-- Eu vou com você!
-- Hãm?!
-- Isso mesmo Cláudio. Acabei de me formar e meu pai me prometeu uma viagem de presente. Eu vou com você!
Claro que a idéia de viajar para Carol continuou a mesma, porém os planos e os rumos agora eram outros. Ela percebeu que Cláudio ainda não havia conseguido mudar. Se dissesse a ele que pretendia ir para outro lugar era capaz de duas prováveis viagens se transformarem em uma dupla frustração, pois ele “abriria mão” de ir para a França, mas não “abriria mão” que ela não fosse para Itália e isso deixaria evidente que ele continuava o mesmo. Sem que ele soubesse, essa atitude demonstrava o quanto Carol estava conseguindo não se colocar sempre a frente das situações.
Já passava das 6 da manhã. O salão vazio parecia se encher com as esperanças e sonhos do casal. Aquela dança que começava, simbolizava bem a forma como nos últimos meses a relação havia balançado de um lado para o outro. As estrelas projetadas no chão voltaram a girar a medida que eles começaram a rodar. Naquele instante o mundo parou ao redor dos dois. Era como se dalí pra frente tudo e todos estivessem a espera do casal.

... Da tempestade que passara com Carol, só lhe sobrou um copo d’água em cima da mesa e uma nova decisão a tomar. Com o desejo de “fazer a coisa certa”, ele não conseguia fazer outra coisa além de pensar: “E agora, o que eu faço?”.

12 de dezembro de 2006. Depois de tudo que passou, agora Carol não conseguia pensar em mais nada além do seu baile de formatura. Não saía da sua cabeça como aqueles quatro anos já tinham chegado ao final, afinal ela ainda se lembrava do primeiro dia de aula. Segundo seu pai, Paulo, na vida, quanto mais dividimos momentos especiais com outras pessoas, mais eles tendem a se multiplicar em nossas lembranças. Essa era uma frase que voltava a sua cabeça sempre que sua vida dava um passo adiante. Já passava das dez e de uma dezena as vezes que Carol havia experimentado seu vestido de formatura. Só o toque do telefone foi capaz de impedir mais uma troca de roupa.
-- Alô?
-- Carol! Sou eu...
-- Pai!!! Tava pensando em você agora!
-- Ah, que bom filha! Eu penso em você toda hora... Sei que é um pouco tarde pra gente conversar, mas queria que você fosse pensando em uma coisa.
-- Diga. O que é?
-- Estive conversando com sua mãe e decidimos te dar de presente de formatura aquela viagem pra Itália que você sempre quis!
-- Não acredito!! Eu não podia querer outra coisa!
-- Pois bem, agora é só você se programar.
-- Muito obrigada Pai. Você são tudo pra mim! Beijo!
-- Outro, até logo.
Em um primeiro momento, Carol se pôs em primeiro plano e só conseguiu imaginar como seria sua viagem. Em um segundo momento, ela se pôs em segundo plano e começou a imaginar qual seria o impacto disso em sua relação. Pensar dessa forma parecia ser mais coerente naquele momento. O baile de formatura estava chegando, e com ele a chance dela dizer a Cláudio sobre sua possível partida.

... Naquele momento tudo conspirava a favor. Os receios viraram anseios. Os olhos, olhares. Os braços, abraços. As bocas, o beijo. Estava marcado o recomeço de uma estória que acabou de começar.

Depois das reviravoltas dos últimos tempos, qualquer dia parecia comum (como um dia qualquer). Recordar tudo que havia acontecido era inevitável. Cláudio sabia que o problema não era viver lembrando os momentos vividos, e sim, viver apenas para lembrar dos momentos vividos. Depois da tempestade que criaram e passaram juntos, a ordem agora era cultivar e não passar pela calmaria que atravessavam. Esta que acabou se estendendo também ao trabalho de Cláudio. Para ele, ficar sem fazer nada no serviço era tão “chato” quanto ter de fazer alguma coisa nas férias. O dia continuava descontínuo até ele ser chamado na sala de seu chefe; Roberto.
-- Cláudio. Vou ser bem direto com você. Como recompensa pelos seus últimos trabalhos, decidimos te dar a chance de fazer um estágio por 3 meses na CE9, a maior agência de publicidade de Paris. Pretendemos que você parta antes do natal. Já estamos em dezembro, por isso preciso da resposta em até duas semanas.. Bom; estou atrasado pra uma reunião. Pense bem hein!
Realmente Roberto havia sido muito direto. Indiretamente, Cláudio se mostrava surpreso e feliz ao mesmo tempo. Se pudesse, talvez ele decidisse receber essa proposta um pouco depois. Mas o fato era que Roberto aguardava uma decisão o quanto quanto antes. Da tempestade que passara com Carol, só lhe sobrou um copo d’água em cima da mesa e uma nova decisão a tomar. Com o desejo de “fazer a coisa certa”, ele não conseguia fazer outra coisa além de pensar: “E agora, o que eu faço?”.

... O mais importante naquele momento era cada um “se encontrar” antes de “se encontrarem”. Porém, o tempo não parecia ajudar e a partir daquele instante cada hora a mais era uma a menos pro novo encontro acontecer.

20:15: Cláudio já está pronto há uma hora enquanto Carol se apressa em se aprontar. Acabou perdendo a hora. Decidiram ir ao Lord Jim, um pub muito frequentado em Ipanema. Nesse caso o local do encontro estava em segundo plano, ou serviria apenas como pano de fundo para a conversa. Mesmo estando juntos há quase um ano, seria difícil separar o que passou do que passaria a acontecer depois daquela noite. O momento era decisivo. Como se fosse o “ponto da partida”, que nesse caso poderia servir como um novo “ponto de partida” para os dois. 20:45: Ansioso, Cláudio já não aguentava mais ver a hora não passar. Agora, não vê a hora de chegar ao flat de Carol. 21:00: Receosa, Carol decide que não vai mais ao local combinado. Enquanto espera na varanda, cultiva a esperança de que Cláudio entenda e não pretenda desistir do encontro por isso. Ele chega. Ela explica que um local público não combinaria com uma conversa tão particular. Apesar de achar o motivo irrelevante Cláudio releva e os dois entram no flat.
-- Então Cláudio. Como te falei, tem algumas coisas mal resolvidas com nós mesmos. Por isso resolví mudar. Ou pelo menos tentar. No meu caso, e você sabe disso, só o fato de tentar já significa uma mudança.
-- Claro! Até porque isso está diretamente relacionado a nós e não só a você. Não sei, mas as vezes acho que as coisas são tão confusas pra mim e tão claras pra você. E que não gostamos um do outro com a mesma intensidade.
-- Acho que não é assim. Pra mim a melhor forma de entender o outro é não tomar a si mesmo como base. Aceitar as diferenças. Pode não parecer, mas talvez eu goste até mais de você do que você de mim. Só que do meu jeito. No nosso caso o mais importante é você gostar mais de si.
-- Não tinha pensado por esse lado. Acho que isso separa o “gostar” do “sofrer por gostar”. E eu não gosto de sofrer!
-- Então não sofra! Eu não queria que nós tivéssemos passado por essa crise, mas querendo ou não agora a gente se conhece melhor...
-- Exatamente! Em todos os sentidos. E que daqui pra frente não haja mais sentido nos separar!
Naquele momento tudo conspirava a favor. Os receios viraram anseios. Os olhos, olhares. Os braços, abraços. As bocas, o beijo. Estava marcado o recomeço de uma estória que acabou de começar.