Por mais que eu tentasse resistir, não tinha jeito, a semana tava começando e eu precisava ir pra faculdade. Essa era a minha única obrigação (mesmo eu não sendo obrigado a cumprir). Troquei de roupa e quando já tava quase saindo olhei pra aquela camiseta branca e pensei: não, melhor trocar, vestido de branco assim os outros vão pensar que eu sou louco. Voltei, coloquei uma camiseta preta e fui em direção ao ponto de ônibus. Eles apontavam no fim da rua enquanto eu tentava ver ansiosamente se era o que eu pegava e depois que eles chegavam me sentia impaciente e frustrado por não ser o meu. Isso se repetiu umas 50 vezes até que finalmente ele apareceu. Minha cabeça doía e meus olhos começavam a pesar um pouco. Sentei na janela, no segundo banco da direita. Olhava as pessoas que entravam no ônibus passarem e quando alguma delas olhava para o banco vazio ao meu lado eu pensava: não, não, é proibido sentar aqui, proibido, proibido. Algum tempo se passou e o inevitável estava pra acontecer. Alguém ia ocupar aquele lugar, era uma menina, aparentava ter uns 22 anos, loira, muito bonita e talvez por muitas pessoas dizerem isso pra ela, tinha uma cara de cú impressionante. Parecia se sentir a rainha do ônibus. Enfim, a miss da linha se sentou ao meu lado e a viagem seguiu. Quando faltava uns 10 minutos pra eu descer tudo estava parado; alguns funcionários de alguma construtora reivindicavam alguma coisa. Sinceramente eu não tava nem aí pra aquilo, mas como de costume aquilo me atingia diretamente. Enquanto o marasmo se seguia pensei em puxar um papo com a miss da linha. Primeiro imaginei como seria a conversa pra ter certeza se valeria a pena.

-- Olá. Tudo bem?

(cara de cú, seguida de um meio tudo)

-- Tá afim de conversar ou tá sem saco?

-- Ahh, to com sono.

-- Então tá, foi um prazer não te conhecer!

Comecei a rir incontrolavelmente e aquilo chamou a atenção de todos (principalmente da miss da linha). Ela me olhou com cara de estranheza e percebendo que havia um banco vazio do outro lado se levantou. Naquele momento eu olhei pra ela e disse bem alto: foi um prazer não te conhecer! Desta vez seu olhar foi de medo e ela desceu no ponto seguinte. Coitada, deve ter tido que andar quase 1 km e nesse trajeto todo deve ter me xingado de todas as formas. Me arrependi um pouco mas pelo menos consegui esquecer daquela dor de cabeça que voltava subitamente. Saltei do ônibus e segui em direção a faculdade. A primeira aula já tinha começado. Entrei e me senti fuzilado com todos me olhando. Depois de cumprimentar alguns amigos percebi que não conseguia me concentrar em nada que o professor dizia. Só conseguia prestar atenção nas pequenas conversas paralelas e tentava decifrar o que falavam para saber se não era nada relacionado a mim. Aquilo foi aumentando e eu não consegui mais me segurar. Juntei as minhas coisas e sai da sala completamente atordoado. Dessa vez dei sorte e meu ônibus foi o primeiro a passar. Enquanto há meia hora atrás dava gargalhadas, agora estava aos prantos me sentindo totalmente dominado por tudo aquilo. Eu não aceitava aquela situação e quanto mais tentava assumir o controle de tudo menos controle tinha sobre o que estava acontencendo. Cheguei no apartamento ainda antes do almoço e resolvi tomar um banho pra tentar relaxar. Me lembro da minha vista escurecer e de não conseguir entender muito bem porque a torneira continuava girando sem parar (na verdade ela tava espanada, mas pra mim aquilo era alguma coisa da minha cabeça). Não sabia mais o que fazer. Morava sozinho e não queria deixar minha mãe preocupada com aquilo, até porque ela levaria mais de 6 horas pra chegar em São Paulo e sinceramente eu não me considerava ter sido um bom filho até aquele momento pra merecer tanta atenção.

Resolvi continuar a estória que começara no dia anterior mas desta vez sob um prisma mais positivo. Tinha que de alguma forma reconciliar os personagens pra que o livro começasse de vez.

-- Alô, Ca? Sou eu.

-- Pode falar..

-- Realmente tudo o que a gente tá passando tem me feito muito mal e eu não posso mais continuar assim. Preciso muito de você nesse momento e você nem imagina o quanto. É uma coisa que vai muito além de gostar ou querer ter pra si.

-- Tá acontecendo alguma coisa? Tô ficando preocupada. Pra mim a gente nunca esteve prestes a terminar, só tava numa fase um pouco mais nebulosa e nada mais.

-- Nossa Ca, você não imagina como é bom ouvir isso. Parece que tirei um caminhão das minhas costas.

-- O senhor exagerado! Amanhã a gente se vê! Beijo!

-- Beijo.

Um pouco simplista demais talvez, mas foi o máximo que consegui produzir. A minha ansiedade pra resolver tudo contribuiu e contagiado pela atmosfera do texto resolvi ligar pra Flá.

-- Alô, Flá? Sou eu .

-- Pode falar..

-- Realmente tudo o que a gente tá passando tem me feito muito mal e eu não posso mais continuar assim. Preciso muito de você nesse momento e você nem imagina o quanto. É uma coisa que vai muito além de gostar ou querer ter pra si.

-- Sinceramente acho que não tem mais clima pra gente ficar junto. Queria ter dito isso a você quando fui aí, mas não consegui. A gente vive momentos muito diferentes e eu acabei conhecendo uma pessoa muito especial. Enfim, não quero falar muito disso pra não te magoar mais.

-- Nossa Flá, você não imagina como é ruim ouvir isso. Parece que o mundo tá caindo nas minhas costas e eu esperava que você me ajudasse a tirar tudo de cima, mas pelo contrário, você acaba de jogar mais coisas em cima de mim..

-- Me desculpa! Por favor!

Desliguei o telefone e tive todas as sensações de perda ao mesmo tempo: dor, inconformismo, raiva, angústia. Tinha feito o máximo pra conseguir manter tudo como estava. Me concentrei e lutei contra meu estado psíquico pra ter aquela conversa mas de nada adiantou. Desconsolado, andando de um lado para o outro conclui que a estória da minha vida não seria escrita só por mim, mas sim, no mínimo a quatro mãos.

Sempre achei São Paulo uma cidade muito fria, cinza, um lugar onde as pessoas olham as outras só pra confirmar se estas estão olhando pra elas. Um lugar onde a desconfiança e o medo sufocam qualquer tipo de hospitalidade que alguém possa ter. Voltava da faculdade, onde cursava o terceiro ano de publicidade, na mesma hora de sempre. As pessoas também eram quase sempre as mesmas e algumas vezes eu pensava viver algo parecido com o que acontece no filme “Truman: show da vida”. Devaneios a parte, naquele dia alguma coisa parecia diferente. Aquele primeiro banco do ônibus já não estava tão confortável assim; as conversas das outras pessoas atrás de mim me incomodavam e eu não me sentia avontade com aquilo. Imaginava que todos falavam de mim, de algum detalhe ou alguma coisa em mim que eu não percebia. Aquela sensação de estranhar a si próprio não parecia ser tão estranha. Desci no segundo ponto depois do cemitério (era assim que eu tinha aprendido em que ponto descer e continuava sendo assim que eu fazia há 3 anos). Cheguei no prédio ansioso e um pouco ofegante e me perguntava porque o porteiro não destravava logo o portão. Será que ele tinha alguma coisa contra mim? pensei. Entrei e percebi algo estranho em seu olhar. Logo depois que as portas do elevador se fecharam ouví algumas risadas que confirmaram o que eu pressentia: ele só podia estar rindo de mim. Entrei sem saber se eram todos que estavam diferentes ou eu que não conseguia mais me reconhecer. Aquilo tudo era muito estranho, parecia que o mundo conspirava contra, que tudo girava ao meu redor no sentido contrário. Liguei a tv e subitamente vi o relógio do jogo de futebol  voltar 1 segundo e deixar claro meu estado de paranóia. Deitei na cama e comecei a transpirar e sentir uma impotência muito grande diante de tudo que se passava. Estava acontecendo de novo, era síndrome do pânico. Dentre todas as minhas paranóias essa era a única que agia sobre mim sem que eu conseguisse esboçar nenhuma reação. Liguei para a minha analista e ela me indicou o mesmo calmante que eu tomei da última vez que tinha acontecido. Por sorte eu ainda tinha alguns comprimidos em cima da geladeira e não precisei juntar forças e criar coragem pra descer até a farmácia. Aquela tarja preta agiu como uma venda em meus olhos e depois de engolir o comprimido não me lembro de mais nada.

No dia seguinte estava deitado no chão da sala com a tv ligada e uma dor de cabeça incontrolável. Já passava das duas da tarde e eu precisava comer alguma coisa. Poderia ter feito o pedido por telefone, mas meu espírito de superação falou mais alto e eu decidí ir até um fast food próximo pra encarar o problema de frente. Depois de sentar para esperar meu pedido ficar pronto percebi que duas meninas conversavam e me olhavam de vez em quando e eu também as olhava, mas apenas pra saber se elas estavam me olhando. Uma mesa vazia a minha esquerda determinava o espaço que nos separavam que não passava de um metro. A proximidade era muito grande e diretamente proporcional ao pânico que eu comecei a sentir. Tentei disfarçar procurar algo no celular, mas quanto mais eu tentava parecer normal mais estranho eu ficava. Minhas mãos começaram a tremer e as meninas perceberam o que estava acontecendo. Prontamente as duas se levantaram e enquanto a primeira me olhava com cara de assustada, a segunda tentava convence-la de que não havia problema algum e que ela já tinha conhecido pessoas com casos parecidos. Elas foram embora e aquele fato me abalou profundamente. Comecei a chorar e entre uma lágrima e outra peguei o almoço e resolvi comer em casa. Passei pela recepção do prédio olhando para o chão e desta vez não dei nenhuma chance para que o porteiro me atingisse com algum olhar estranho. Depois de comer, liguei novamente pra minha analista e descrevi toda a situação. Ela me explicou que isso acontecia porque havia algum gatilho que disparava a minha sensibilidade elevando-a a níveis extremos e que eu precisava identificar a causa e resolver a situação. Realmente era isso, da primeira vez o fato estava ligado a morte de meu pai e desta ao possível término do meu namoro de quase 3 anos. Era insuportável imaginar que a mulher da minha vida estivesse prestes a deixar a minha vida. Para que isso não acontecesse eu estava disposto a aceitar o fato dela ter ficado com outra pessoa e já atribuía ao que aconteceu a idéia dela ter acabado de entrar na faculdade e estar contagiada por todo o clima de mudança proporcionado por isso. Liguei para a Flá e pedi pra ela passar as 18 no meu ap pra gente conversar.

Definitivamente o tempo não estava a meu favor. Depois de vê-lo voltar no dia anterior o que eu mais queria era que ele passasse o mais rápido possível naquela tarde. Aproveitei pra colocar em prática um desejo antigo: começar a escrever um livro. De acordo com a minha analista aquilo me ajudaria a exteriorizar todos os meus medos e angústias e a medida que eu fosse escrevendo iria me sentir cada vez mais relaxado. Era inegável que a minha situação naquele momento iria influenciar diretamente na estória. Sem nenhuma inspiração, as coisas não caminhavam muito bem e eu tinha produzido muito pouco até que a campainha tocou. Só podia ser a Flá e a tão esperada conversa estava pra começar.

-- Tudo o que aconteceu não foi de propósito, ou pelo menos com o propósito de te magoar.

-- Como?

-- Isso mesmo! Não tive intenção de te machucar.

-- Mas as suas intenções com aquela pessoa me machucaram. Portanto, mesmo indiretamente você teve intenção sim.

-- Você nunca vai entender Gabriel! Você não consegue separar as coisas. Se primeiro tentasse me entender, talvez agora conseguisse perceber que não havia má intenção.

-- Talvez você tenha razão. Mal intencionado sou eu por querer manter uma relação com você.

Pronto, o primeiro diálogo da estória tinha terminado. Ainda refletindo se Gabriel seria um bom nome pro protagonista abrí a porta e a Flá entrou. Depois de um beijo rápido, apenas pra cumprir o protocolo, comecei a conversa enquanto ainda trancava a porta.

-- Flá. A gente tá passando por momentos diferentes, mas eu acho que tudo pode dar certo, a gente pode ficar bem e superar tudo isso.

Diferentemente da estória, comecei logo fazendo o papel que eu esperava que a Flá fizesse. Não queria continuar brigado e nem discutir muito sobre o assunto; precisava resolver aquilo o quanto antes. Porém, parece que o desejo não era recíproco. Um silêncio enorme se seguiu depois de eu ter dito aquilo. Ela estava com uma cara que negava cada palavra e ao mesmo tempo com um olhar de estranheza muito grande, talvez em retribuição aos meus que deixavam visíveis minha situação. Minha cabeça tremeu levemente como uma espécie de tique nervoso e depois de alguns segundos ela resolveu me dizer que ainda estava muito confusa e que não decidiria nada naquela hora. Que merda! Eu poetizei tanto aquele momento, criei um diálogo pra estória tentando prever como seria (tudo bem que no diálogo eu não dava o braço a torcer mas no fundo queria que tudo terminasse bem) e só recebí em troca uma resposta da boca pra fora. Ela pareceu ter passado só pra dar um “oi” e dizer que tudo continuava igual. O vazio que se instaurou entre a gente foi tão grande que pela primeira vez achei que aquela kit net  possuia espaço suficiente pra alguém sobreviver. Tinha quase certeza de que ela percebeu que eu não estava mentalmente bem e por isso deu um jeito de ir embora o quanto antes. O impasse estava formado. Eu precisava dela pra superar tudo aquilo e ao mesmo tempo parecia precisar estar bem para continuar com ela.

Layout simples né? Pois é.. Pretendo começar a colocar em prática meu primeiro plano de 2009 ainda em 2008. Vou começar a escrever outra estória e para isso precisava de bastante espaço livre para os textos. Pretendo postar um capítulo por semana ou a cada 15 dias (dependendo do andamento da estória). Espero que gostem!


Um abraço,

Leo