Em uma noite de quarta comum, alguns amigos conversavam animadamente sentados ao redor de uma mesa de bar.
...
-- Lu: Vc me fez pensar no quanto nós seres humanos somos bobos, ao ponto de pequenas bobagens estragarem tudo de melhor que construímos numa relação, seja ela qual for. E agora? Como vai se dar esse "passar a limpo"?
-- Rapha: Inícios ou fins causam sempre expectativa e preocupação. Quero saber o que vai sair dessa conversa.
-- Batom Cor de Rosa: humm, romances no ar!
O clima estava esquentando e parecia que Lu finalmente iria revelar que estava vivendo um novo romance depois de um término conturbado de namoro. A questão era saber se ela havia ou não conseguido conquistar seu novo pretendente.
-- Rapha: Depois nós falamos que mulher é um caso sério, elas não acreditam!..
-- Si: Pensando bem, o Rapha tem razão. A mulher consegue convencer muito bem os que estão na corda bamba.
Depois de alguns segundos de silêncio e mais alguns copos de cerveja, Rapha resolveu lançar uma indireta para que Lu tomasse coragem e contasse logo as novidades.
-- Rapha: Segredos podem ser revelados... Qualquer coisa pode haver uma explosão.
-- Robertinho: O queeeeeee... colocando lenha na fogueiraaaa!! Queremos mesmo é ver o circo pegar fogo!”
-- Patrícia: Pronto, tô roendo as unhas!!!
-- Lu: Tchan tchan tchan tchan!!!
-- Ricardo: Já to sentindo o cheiro de confusão nessa historia..
Percebendo que a conversa chegava num ponto decisivo e por conhecer a timidez de Lu, Rapha foi direto ao ponto.
-- Rapha: Todo mundo é hipócrita em dizer que já não passou por coisas parecidas assim! Se já trocou, já trocou!
-- Lu: Mas é que tudo acontece de forma tão intensa aqui dentro. A minha vida é muito complicada!
-- Ricardo: AHAAAAAAAAA!!! eu sabiiiiiiiiiiaa!!
-- Robertinho: É, mulher é tudo igual mesmo...
No último lugar da mesa, Léo continuava em silêncio anotando algumas falas de seus amigos para depois transformá-las em comentários sobre os posts de seu blog.


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No meio de uma larga rua vazia e em meio a um largo vazio dentro de si, ele caminhava sob olhares cruzados enquanto seus olhos apenas correspondiam minuciosamente a dor de um amor não correspondido. Suas juras de amor eterno, agora eram quem juravam a sua morte. Seu comportamento e atitudes inigualáveis enquanto juntos, agora se igualava a de qualquer outro depois de separados. E aquilo não fazia mais diferença; ele não a fazia sentir-se mais diferente. O concreto dos prédios, o dia nublado e a poluição que compunham o cinza da cidade tiravam as cores da sua esperança. Mais dois passos e ele estaria a um passo de se jogar. A paz daquela leve brisa das tardes de sexta havia chegado tarde demais. Seus pulsos acelerados o impulsionavam a saltar. Naquele instante e apenas por um instante sua consciência falou mais alto do que qualquer sentimento dentro de si.
-- Príncipe encantado, almas gêmeas, amores eternos, nascidos um para o outro... Ah, mas que bobagem. Não existe só uma pessoa certa pra cada um de nós. Existem várias pessoas certas pra cada um de nós. Ela era apenas mais uma das pessoas certas pra você que não deu certo com você. Seus exageros e fantasias ainda potencializarão muitas de suas desilusões amorosas.
Consolado por sua própria consciência o mendigo deu alguns passos para trás, sentou-se na calçada e preparou-se para se apaixonar perdidamente pela próxima moça que passasse.

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As duas deram o sinal para o ônibus. A primeira subiu os dois degraus e dirigiu-se ao cobrador. A segunda veio atras e depois de saltar os dois “degrais” já foi mais pra perto da roleta. Enquanto uma propunha-se a procurar algumas moedas a fim de facilitar o pagamento, a outra só queria saber de sentar em um dos dois bancos que ainda tinham sobrando. Sentaram-se lado a lado. Da janela, a primeira via e se sensibilizava com a miséria e alguns olhares desesperançosos. Do corredor a coisa mais fácil que tinha pra acontecer era alguém chegar e pedir dinheiro pra segunda; era só nisso mesmo que ela pensava. A primeira continuava transformando o longo percurso em um momento reflexivo e vislumbrava o sol que refletia em si seu último lema: sempre manter a esperança, mas nunca esperar por nada. Do lado dela só dava pra ver era a vontade de sair do busão. O sol já tava batendo no rosto da segunda moça, que começou a bufar por causa daquele calor de rachar.
Os degraus eram os mesmos e serviram tanto para subir quanto para saltar. Do lado de fora ou de dentro a miséria era a mesma. O sol que incomodava era o mesmo que recomfortava. Maneiras e formas distintas de ver a mesma coisa aliada a maneiras e formas iguais de ver coisas diferentes enriqueciam aquela viagem e enriqueceria cada uma delas se tivesse havido um diálogo. A medida que o ônibus chegava perto do destino media-se entre as duas uma distância cada vez maior. Esta que foi contida quando após a parada uma delas se levantou e disse:
-- Tchau mãe.
-- Vai com Deus minha filha.

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