Sinais

Filha. Hoje você completaria 6 anos. Isso quer dizer que já faz quase 1 ano que você partiu. Não consigo esquecer que sempre quando lhe perguntavam sua idade você levantava a mão espalmada. Você mal sabia contar, muitas vezes sequer sabia o que estavam te falando, mas a resposta era a mesma: cinco anos. Desde que você nasceu, esse gesto já significou muitas coisas pra mim. Nos primeiros dias entendia como um chamado e logo estava ao seu lado tentando decifrar o que seu olhar queria me dizer. No seu aniversário de 1 ano, quando te vi levantar a mão e olhar pra frente, deduzi ser um aceno à todas aquelas pessoas presentes. A partir daí veio o tchau, o para, o oi e finalmente a resposta para a pergunta quantos anos você tem. Estava tudo sempre ali, na minha cara, e eu não imaginei que cinco anos seria o tempo que passaríamos juntos. E cinco anos passam tão rápido, e a vida passa tão rápido, e a sua vida passou tão rápido minha filha, tão rápido que eu não tive tempo de assimilar tudo o que você quis me dizer. E agora que eu tenho todo o tempo do mundo pra isso, agora que o tempo tem passado cada vez mais devagar, que o mundo tem girado no seu ritmo, no ritmo de uma criança que parecia só saber contar até cinco, agora é tarde. Tarde demais pra chegar mais tarde no trabalho e te ver acordar, tarde demais pra chegar mais cedo em casa e te colocar pra dormir, tarde demais pra deixar você molhar o meu terno enquanto toma banho, tarde demais pra perceber que você só viveria até os cinco e que de muitas formas tentou me mostrar isso. Enfim, tarde demais pra te ensinar a contar até cem.

Pontos de vista

Foi você quem decidiu, foi você quem o fez. Sim, terminou, mas só pra você. Nossa relação agora é pra mim como um estrela que ainda pode-se ver o brilho mesmo depois de já não existir mais.

Pré-ocupada

Havia dois caminhos a seguir. O primeiro, a princípio, não levava a lugar nenhum e o segundo, e principal, levava ao primeiro. Em uma decisão sensata, ela escolheu o segundo. Ele era sim um caminho mais longo, ele era sim um caminho sem volta, ele era assim como qualquer outro, com apenas uma ressalva: o fato de levar ao primeiro, e este, a princípio, não levar a lugar nenhum. E assim ela viveu situações inigualáveis. Tomou chuva sábado a tarde, mas não esqueceu de segunda-feira. Tomou sorvete no inverno mas não esqueceu do último verão. Viveu fantasiando fatos mas não viveu todas as suas fantasias quando elas aconteceram de fato. Tudo por saber que aquele caminho a levaria ao primeiro e o primeiro, a princípio, não a levaria a lugar nenhum. Sua vida passou, suas idéias tornaram-se ultrapassadas e finalmente os dois caminhos se uniram. Mais alguns anos de caminhada e para a sua surpresa, aquele primeiro que, a princípio, não levava a lugar nenhum a levou ao segundo caminho. Ela se viu novamente frente a frente com o começo de tudo; pensou em tudo o que passou e na forma como se passou e concluiu: realmente este primeiro caminho não me leva a lugar nenhum.

Ela

Para o Universo,
você é uma pessoa entre quase 7 bilhões de pessoas, pertencente a um planeta que gira em torno de uma estrela que junto com outras 100 bilhões de estrelas compõem uma única galáxia entre outras 200 bilhões de galáxias.

Para mim,
você é aquela que me faz imaginar o quanto seria insignificante todas as 200 bilhões de galáxias, 100 bilhões de estrelas e 7 bilhões de pessoas se uma delas não fosse você.

Sobre o tempo

Aos 15 eles se conheceram. Ainda não sabiam nada sobre o amor, mas sentiam-se seguros quando estavam juntos . Não sabiam nada sobre a saudade, mas sentiam-se indefesos quando estavam separados. A única coisa que eles realmente sabiam era que seria desnecessário tentar explicar ou descrever aquela situação; eles só precisavam mesmo era sentir. E foi isso o que fizeram. Logo no segundo encontro via-se uma enorme sintonia crescer. Suas palavras dançavam em sincronia e eles já não se davam conta de quanto o tempo passava absurdamente rápido quando estavam juntos. Após este dia ficou claro que algo inexplicável estava acontecendo. Ao chegar em casa, ele percebeu que já lhe cresciam alguns pêlos sobre o rosto e procurava entender qual o sentido de ter envelhecido quase 6 anos desde a última vez em que a viu. Ela por sua vez tentava decifrar o que aqueles sapatos faziam no armário e como combinar todos os itens do seu novo estojo de maquiagem. Mais alguns dias e um novo encontro aconteceu. Agora em um bar movimentado e não em frente a igreja como da última vez. Eles chegaram, se cumprimentaram e o sincronismo de uma longa respiração ofegante deixou claro que os dois não sabiam o que dizer e nem o que fazer naquela situação. Um longo abraço que durou incontáveis noites marcou a despedida para ambos. A manhã seguinte fez dele um homem já com 30 anos e dela uma mulher prestes a comemorar seu aniversário. Seria contraditório tentar revê-la para lhe desejar muitos anos de vida. Este desejo só se concretizaria se ambos decidissem não se ver mais. E eles decidiram. Decidiram continuar apenas sentindo, sem tentar explicar ou descrever a situação. A cada nova oportunidade de se conhecerem mais um enxergava nas marcas de expressão do outro o tempo se esgotando. Com ambos aos 70 anos, o quinto e último encontro foi uma espécie de data marcada para a despedida. Vistas por outros olhos suas lágrimas caíam numa velocidade incrível. Estava claro que tudo terminaria quando um dos rostos secasse e o outro continuasse chorando pela recente perda. A situação caminhava pra isso até que em um ato de amor e cumplicidade, como para abafar os gritos de uma morte anunciada, eles se beijaram. Naquele instante o tempo parou; uma doce recompensa que os permitiu viver juntos cada minuto dos próximos 70 anos.